A CRONOLOGIA DA ÁGUA | A EXPERIÊNCIA DE UM CORPO QUEBRADO
- raianecfferreira

- 17 de abr.
- 3 min de leitura

Título original: The Chronology of Water | Dirigido por Kristen Stewart | País: Estados Unidos, França | Ano: 2025 | Biografia, Drama, Romance
Kristen Stewart já é reconhecida por seus trabalhos como atriz, porém, desde 2014, vem se aventurando na direção como um espaço de experimentação estética. Mais recentemente, lançou seu primeiro longa-metragem, “A Cronologia da Água”, baseado no livro de mesmo nome, no qual Lidia Yuknavitch narra suas experiências de vida em meio a abusos, vícios, compulsões e perdas.
Em “A Cronologia da Água”, Stewart constrói uma narrativa que dialoga diretamente com a estrutura do livro, optando por capítulos, flashes, elipses, narração, câmera instável e uma montagem fragmentada. Mais do que traduzir a história, essas escolhas procuram incorporar o caos da vida da protagonista à própria materialidade do filme, transformando forma e conteúdo em dimensões indissociáveis. Nesse sentido, a sensibilidade da direção se evidencia sobretudo nas escolhas imagéticas e sonoras, que operam menos como ilustração e mais como experiência.
O uso da imagem e do som como dispositivos de aproximação é um dos pontos mais consistentes do filme. Ao nos inserir nas vivências, lembranças e traumas de Lidia (Imogen Poots), a direção recusa um olhar distanciado. A fuga da irmã, o abuso do pai e a negligência da mãe não são organizados em uma lógica causal simplificada, mas apresentados como forças contínuas que atravessam sua existência, reverberando especialmente nos relacionamentos e no uso de entorpecentes. Nesse contexto, a natação e a escrita emergem não como soluções redentoras, mas como práticas de sobrevivência.

O filme não julga, tampouco enquadra as escolhas e atitudes de Lidia em categorias morais preestabelecido. A câmera não apenas narra — ela insiste nos detalhes, nos gestos e nos fragmentos, privilegiando instantes que despertam sensações: a memória evocada por uma música, ou a experiência quase física de estar na água. Há, portanto, uma recusa em organizar a experiência em termos narrativos convencionais, privilegiando o sensorial como eixo central.
Essa dimensão sensorial surge do fato de o filme operar como um corpo, uma materialidade instável, em diálogo com a subjetividade da protagonista. Há lampejos de luz atravessando a imagem como se o filme estivesse em combustão; frames se repetem, sugerindo uma perda de controle; e o trauma emerge não como um evento claramente delimitado, mas como uma lembrança difusa, borrada e dor se transforma em linguagem visual.
A câmera, constantemente próxima, insiste nos detalhes, nos corpos e nos fragmentos de ação. Essa escolha reforça a dimensão íntima da narrativa, pois em muitos momentos, existe uma forte sensação de tatilidade, como se a imagem pudesse ser tocada. Paralelamente, a sonoridade se destaca por um hiper-realismo que, intensifica os ruídos, as respirações, garantindo uma sobrecarga sensorial que aproxima o espectador. O som, aqui, não tão somente acompanha a imagem, ele a atravessa, dando uma nova camada ao que ouvimos.

Este não é um filme fácil — não apenas pelo tema do abuso intrafamiliar, mas por sua recusa em aderir aos padrões narrativos do cinema hegemônico de Hollywood. Nesse contexto, é interessante observar como diretoras contemporâneas, como Lynne Ramsay, Mary Bronstein e Mona Fastvold, também têm investido em formas fílmicas que tensionam a linearidade, explorando o uso de planos fechados, a fragmentação narrativa e o som como elemento estruturante da montagem. Mais do que uma coincidência, trata-se de um movimento que desloca o centro do cinema da ação para a experiência.
No filme de Kristen Stewart, esse deslocamento se concretiza na construção de um mosaico de lembranças que não busca organizar plenamente a vida da protagonista, mas dar forma à sua instabilidade, no qual a escrita surge como um gesto possível de reorganização e elaboração interna. Ele incomoda, instiga e atiça nossos sentidos.
“A Cronologia da Água” evidencia o potencial inventivo de um cinema que se afasta das convenções, que reafirma seu espaço sensorial e experiencial, no qual o corpo feminino deixa de ser apenas objeto de representação para se tornar linguagem. É nesse sentido que se pode pensar, com mais rigor, o potencial inventivo do cinema feito por mulheres — não como uma essência, mas como uma prática que insiste em tensionar e reinventar as formas de narrar, perceber, sentir um filme.




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