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O Diabo Veste Prada 2 | Sequência que prefere repetir a se reinventar

  • Foto do escritor: raianecfferreira
    raianecfferreira
  • 12 de mai.
  • 3 min de leitura

Uma jovem jornalista consegue a oportunidade de trabalhar em uma famosa revista de moda de Nova York. Sua função é ser assistente de Miranda Priestly, a rigorosa e espirituosa editora-chefe da publicação. Andy vê naquele emprego uma chance de ampliar contatos e impulsionar sua carreira para atuar no jornalismo que realmente deseja exercer, voltado a temas mais “sérios”, apesar de sua pouca familiaridade com o universo da moda. Contudo, sua experiência na revista acaba sendo muito diferente do que imaginava, especialmente por precisar lidar com a personalidade difícil de Miranda.


Essa é a premissa do primeiro O Diabo Veste Prada. Na continuação, Andy retoma o contato com a antiga chefe em meio às transformações do jornalismo contemporâneo, atravessado pelas pressões da publicidade, pelas mudanças tecnológicas e pela presença crescente da inteligência artificial.


O filme acerta ao comentar essas reconfigurações do mundo do trabalho e da comunicação. Há um interesse em refletir sobre a fragilidade das revistas impressas, a velocidade do mercado e o modo como profissionais experientes precisam se adaptar a novas dinâmicas. Ainda assim, a narrativa me parece menos convincente no desenvolvimento de seus personagens.


Durante a sessão, me incomodou especialmente a forma como Andy é construída. Mesmo após anos de experiência e reconhecimento profissional, ela ainda parece buscar constantemente a validação de Miranda. A personagem amadureceu estéticamente, sua aparência se difere do primeiro filme, mas emocionalmente parece permanecer presa à mesma dinâmica de aprovação. Sua empatia pela ex-chefe, em alguns momentos, soa excessivamente idealizada, quase como se a relação entre as duas estivessem fora das marcas de abuso e hierarquia que definiram o passado.


Miranda, por sua vez, surge retratada de maneira mais vulnerável diante das mudanças do mercado e do avanço tecnológico. O roteiro parece interessado em suavizar sua figura, deslocando parte do antagonismo para novas configurações corporativas. No entanto, essa escolha nem sempre encontra equilíbrio, porque o filme parece esquecer, em alguns momentos, a dureza e a crueldade que tornaram a personagem tão marcante.


Há também um certo romantismo na forma como o trabalho é representado. Embora o primeiro longa toque em temas como esgotamento profissional e instabilidade, neste segundo a narrativa insiste numa lógica em que o trabalho ocupa um lugar quase absoluto na identidade dos personagens. A dificuldade de Miranda em imaginar uma vida fora da profissão acaba sendo tratada de maneira mais melancólica do que propriamente crítica.



Nesse sentido, o filme parece pouco interessado em transformar seus personagens, preferindo preservá-los como uma lembrança afetiva do primeiro longa. Andy e Miranda continuam presas às mesmas estruturas emocionais e profissionais, como se o tempo pouco tivesse alterado suas formas de existir no mundo.


A presença de Jay, o jovem bilionário interessado em transformar a Runway, reforça esse movimento. Sua função dramática parece deslocar parte do peso moral de Miranda para um novo tipo de capitalismo mais acelerado e descartável. Ainda assim, é interessante perceber como o filme tenta posicionar suas figuras femininas como mulheres experientes e estrategistas em um ambiente corporativo predominantemente masculino.


Lembrei, em diversos momentos, da ideia da “jornada da heroína”, desenvolvida por Maureen Murdock. Em seu livro, Murdock fala sobre mulheres que rompem com aspectos associados ao feminino — sensibilidade, cuidado e intuição — para sobreviver em estruturas masculinas orientadas pela produtividade, competição e conquista. Porém, essa ruptura gera um distanciamento de si mesmas, e a verdadeira jornada surge justamente no movimento de retorno e reconciliação.


Em O Diabo Veste Prada 2, entretanto, parece existir apenas a primeira metade deste percurso. As personagens continuam profundamente submetidas à lógica do desempenho e da permanência no poder, recorrendo a manipulações e concessões para manter seus espaços. Talvez por isso eu tenha sentido falta de personagens mais maduros emocionalmente, capazes de olhar para si mesmos para além do âmbito do trabalho.


O filme acaba provocando uma reflexão interessante sobre a ideia de substituição no ambiente corporativo. Lideranças frequentemente são tratadas como indispensáveis, quando, na prática, nenhuma pessoa é insubstituível. Miranda encarna justamente essa dificuldade de aceitar a possibilidade da mudança — como se abandonar o posto significasse também perder a própria identidade.


As expectativas para a continuação eram naturalmente altas, sobretudo pelo carinho que o público mantém pelos personagens. Muitos espectadores provavelmente encontrarão conforto em revê-los quase intactos. Eu, porém, esperava uma abordagem mais ousada, capaz de encarar as transformações e acontecimentos complexos da vida com mais maturidade.


 
 
 

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