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“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES” | O EROTISMO SENSORIAL E O DESEJO FEMININO

  • Foto do escritor: raianecfferreira
    raianecfferreira
  • 21 de fev.
  • 4 min de leitura


Não é novidade que Emerald Fennell possui um estilo próprio na construção de suas obras. Podemos, inclusive, afirmar que ela imprime um forte tom autoral em seus trabalhos. Seu novo filme, O Morro dos Ventos Uivantes, tem dividido opiniões — não apenas pela suposta “adaptação” distinta da obra literária, mas também por sua carga sensual.


No filme, acompanhamos a relação entre Heathcliff e Catherine Earnshaw. Ela é uma jovem de família rica na Inglaterra do século XVIII; ele, um órfão acolhido pela família. Entre brincadeiras e provocações, surge uma forte conexão que se transforma em uma paixão intensa e, na vida adulta, em profunda dependência emocional. Após a falência de sua família, Catherine decide se casar com um homem rico. Heathcliff, consumido pela raiva e pela frustração, desaparece e retorna anos depois, rico e elegante, decidido a se vingar daqueles que o maltrataram.


Para quem leu o livro, essa nova abordagem provavelmente não agradará, justamente porque a diretora deixa em segundo plano as questões sociais e se concentra na dimensão trágica do romance. A tensão entre Catherine e Heathcliff é o ponto central deste filme. A narrativa se concentra em mostrar o desejo proibido em um jogo de perversidade e obsessão, que, ultrapassam o romântico. Na verdade, nesta história, ambos são co-dependentes um do outro, o afastamento de um provoca sérios desequilíbrios no outro, e a insanidade, a brutalidade e a manipulação aparecem. Neste filme, não há um ser que não possua caráter duvidoso, e o vento aponta calmaria ou agitação naquilo que move os personagens. 


Não pretendo entrar na discussão polêmica sobre a adaptação ser boa ou ruim, tampouco discutir a escolha do elenco ou fazer comparações. A própria diretora afirma que realizou o filme a partir de sua memória da obra e daquilo que gostaria de ver acontecer na história. O que me interessa aqui é discutir o filme em si, que, convenhamos, constitui um belo trabalho cinematográfico. Desta forma, gostaria de me concentrar no que mais me chamou atenção no filme: sua aposta estética e a forma como constrói o erótico.



Para apresentar sua versão pop do relacionamento entre Catherine e Heathcliff, Fennell se afasta da verossimilhança histórica e instaura uma certa atemporalidade no espaço do filme. Essa escolha estética torna compreensível o uso de músicas contemporâneas e figurinos modernos, criando novos sentidos para o tempo, o espaço e o romance. Para quem acompanha a trajetória da diretora, essas decisões revelam um claro traço autoral. A montagem com passagens musicais que destacam diferentes momentos dos personagens — quase como videoclipes — e a provocação erótica construída por ações e elementos visuais já estavam presentes em Saltburn e Bela Vingança.


A diretora utiliza recursos visuais e sonoros para construir um sentido sensual e sensorial que mobiliza os personagens e afeta o espectador, estimulando outros sentidos — como o tato, por exemplo, quando as mãos da empregada tocam a massa de pão. Muitas críticas apontam que Fennell “sexualiza tudo”, classificando esses momentos como repetitivos, problemáticos ou simplesmente ruins. Não me parece o caso. Essa escolha está coerente com a proposta do filme e difere do modo como muitos diretores homens constroem cenas de nudez feminina desnecessárias apenas para agradar ao olhar masculino. Talvez essa seja a forma que a diretora encontrou de trazer o erotismo sem recorrer a apelos voyeuristas.


Fennell aborda o erótico de forma sensorial: não se trata de fazer pensar, mas de fazer sentir. Trata-se de um regime háptico, e não apenas óptico. Estamos habituados a olhar e interpretar o cinema, a codificar significados, mas pouco dispostos a senti-lo. Um filme não precisa necessariamente transmitir uma mensagem explícita, embora, hoje, as discussões midiáticas se concentrem quase sempre no discurso e no tema. Existe, porém, um outro regime no cinema que escapa ao sistema óptico: o háptico, que privilegia a experiência sensorial em vez da narrativa. Em O Morro dos Ventos Uivantes, há momentos que se aproximam desse regime, buscando afetar o espectador — seja provocando fascínio, incômodo, repulsa ou revolta.


A forma como Fennell trabalha a sexualidade é provocante e estilizada. Ela não fetichiza a imagem dos personagens; utiliza, antes, os recursos sensoriais do cinema para construir esse efeito. Um exemplo que dialoga com essa abordagem é o filme belga-francês Amer. Com quase nenhum diálogo, a obra acompanha Ana na infância, juventude e vida adulta, explorando seu despertar sexual por meio de um aparato estético que mistura o sensual e o estranho.


Amer (2009)
Amer (2009)

Trata-se de um daqueles filmes em que a história fica em segundo plano para dar lugar a uma experiência construída a partir das sensações e emoções da protagonista. Os diretores Hélène Cattet e Bruno Forzani se voltam ao desejo, ao medo, à vulnerabilidade e ao terror de ser uma mulher que deseja. Em muitos momentos, imagens e sons carregam a perspectiva da personagem não apenas em seu olhar, mas em suas sensações corporais. A montagem se concentra nesses instantes específicos, como se recordasse fragmentos da vida de Ana em uma longa lembrança amarga.


Anatomia do Inferno (2004)
Anatomia do Inferno (2004)

Além disso, toda a polêmica em torno de O Morro dos Ventos Uivantes no que diz respeito à sexualidade me remete ao cinema de Catherine Breillat. Seus filmes, como Romance (1999), Para Minha Irmã (2001) e Anatomia do Inferno (2004), tratam de sexualidade, intimidade, desejo e despertar feminino por meio de uma abordagem transgressora e explícita. Ao longo de sua carreira, a diretora enfrentou forte censura justamente por abordar encontros sexuais de forma direta e crua.


É claro que o cinema de Breillat é diferente do de Fennell. Ainda assim, o ponto relevante é que ambas são mulheres interessadas em tratar do desejo feminino de maneira autoral — e só isso já basta para gerar incômodos e controvérsias.


 
 
 

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