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DEPOIS DA CAÇADA | AS CAMADAS COMPLEXAS DE UM ACONTECIMENTO

  • Foto do escritor: raianecfferreira
    raianecfferreira
  • 5 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura


Às vezes acho que Guadagnino é um diretor mal compreendido, que divide opiniões: ou você gosta, ou não gosta de suas obras. Eu, particularmente, gosto. Se formos pensar sobre cada filme do diretor, percebemos, cada vez mais, um refinamento em sua construção cinematográfica, demonstrando um interesse temático eclético — indo do body horror, com “Suspiria” (2018) e “Até os Ossos” (2022), aos romances e triângulos amorosos juvenis em “Call Me by Your Name” (2017) e “Challengers” (2024), e ousando mais em relações LGBTQIA+ em um drama psicodélico como “Queer”. Para mim, cada filme possui uma característica única, com referências fílmicas e discussões pertinentes.


Neste novo longa, “Depois da Caçada”, temos um daqueles filmes que não vai te dar respostas prontas, nem ceder aos desejos do espectador, mas que, sim, vai te fazer pensar muito sobre questões sociais e humanas da atualidade. Nele, existe uma complexidade e refinamento cênico nos quais muitas das informações ficam nas entrelinhas. O diretor constrói um drama repleto de nuances e incertezas, levantando dúvidas sobre um acontecimento específico envolvendo um professor universitário e uma aluna, episódio que desencadeia diversas questões, seja no âmbito íntimo, seja no grupal.


Maggie, ainda estudante, parece gostar da atenção que recebe de sua professora, a talentosa Alma, interpretada por Julia Roberts, por quem nutre admiração e um certo amor platônico. O filme começa com uma festa na casa de Alma e de seu marido, Fred (Michael Stuhlbarg). Nesse ambiente, muitos professores tutores e alunos tutorados conversam descontraidamente em um espaço privilegiado. Entre eles está Hank (Andrew Garfield), um dos professores que, apesar de amigo de Alma, também é seu oponente, pois, assim como ela, espera conseguir a titularidade na universidade. Os dois possuem uma relação estranha, que mistura rivalidade e desejo.


Após a festa, Hank se oferece para acompanhar Maggie até sua casa. E, depois deste evento, surge uma denúncia séria por parte da aluna contra o professor. Entre acusações e defesas, Alma se vê envolvida no caso, apesar de não ter presenciado nada. Por mais que cobrem dela, parece fugir de assumir algum “lado”. Não se sabe ao certo o que realmente aconteceu. Ambos os relatos parecem coerentes: a jovem é privilegiada e algo demonstra estar errado com sua tese; o professor, por sua vez, por conta do temperamento, ocasionalmente ultrapassa certos limites.



Apesar da constante disputa de egos e narcisismos que envolve o universo acadêmico, percebemos que todos os três possuem versões de si mesmos que desejam esconder — partes que nem eles gostam de enxergar. As performances excepcionais, com destaque para Roberts, acrescentam camadas complexas a cada um desses personagens, tornando-os profundamente críveis.


A estética naturalista conduz toda a obra, enfatizando a humanidade dos personagens e as ambientações por onde transitam, seja na universidade, seja em restaurantes e bares com música alta. Cada diálogo, ação e reação nos revelam algo sobre essas figuras e nos dão apenas indícios do que poderia ter ocorrido. Tudo é milimetricamente composto nesta caçada em que todos, no fim, acabam perdendo.


O filme me lembra muito a obra de Justine Triet, “Anatomia de uma Queda”, que também não se apega a uma explicação única, utilizando o ambiente de um tribunal para expor questões profundas sobre gênero, relacionamentos tóxicos, mulheres no mercado de trabalho, masculinidade fragilizada e outras tensões do mundo contemporâneo. É por esse caminho que “Depois da Caçada” parece seguir: despreocupado em apontar quem tem razão ou determinar vilões e mocinhos, foca nas relações complexas, nos desejos reprimidos e nos segredos vergonhosos.



É interessante perceber que as mulheres deste filme são masculinizadas, quase como se, para se adequar ao mundo acadêmico, precisassem se comportar de forma semelhante aos homens; assim, performam para serem aceitas e enxergadas ali. Alma é pragmática e busca manter um certo equilíbrio em meio ao caos. Ela não quer se envolver, pois toda aquela situação lhe desperta lembranças que prefere evitar. Nisso surge a culpa. E, quando se fala em culpa feminina, penso em como é mais fácil acreditar que as mulheres são as “destruidoras” das vidas dos homens, quando, na verdade, o que os destrói são suas próprias escolhas — só que é mais conveniente culpar as mulheres.


O roteiro assinado por Nora Garrett aponta para discussões temáticas sobre violência de gênero, diferenças de classe, relações de poder e cancelamento. Só que o filme propõe uma perspectiva ampla, para além das militâncias e das definições rápidas que, normalmente, as redes sociais incitam. Ele expõe a busca daqueles que fazem de tudo para esconder sua mediocridade, bem como de uma juventude que deseja que o mundo se adeque às suas necessidades — tudo isso vindo da imaturidade e da necessidade de aprovação.


Por fim, “Depois da Caçada” é uma obra cinematográfica de narrativa intrigante e cheia de camadas, com uma construção coerente e madura que não apenas conta uma história, mas nos faz questionar as pequenas hipocrisias humanas.



 
 
 

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