DIE, MY LOVE | A DESFUNCIONALIDADE E DOR FEMININA
- raianecfferreira

- 8 de jan.
- 3 min de leitura

“Die My Love” é uma faca no estômago, carregada de desesperança e intensidade. Neste novo filme de Lynne Ramsay — já conhecida por explorar temáticas densas e personagens complexos — temos a adaptação do livro homônimo de Ariana Harwicz, que apresenta uma história difícil de acompanhar. Acompanhamos o casal Grace (Jennifer Lawrence) e Jackson (Robert Pattinson), que acaba de se mudar para uma casa no campo, onde pretendem construir sua família. No entanto, essa nova realidade impõe desafios que vão além daquilo que ambos conseguem lidar.
Ramsay constrói um filme eletrizante por meio de artifícios da linguagem cinematográfica, como a câmera nervosa, a montagem ágil e a sonoplastia que enfatiza ruídos insistentes, como o choro do bebê e o latido constante do cachorro. Esses elementos contribuem para colocar o espectador no mesmo lugar desconfortável em que Grace se encontra. A história não é apenas contada, mas sentida. Não é confortável assistir à autodestruição de uma mulher, motivada por sua insatisfação com a própria realidade e pela incompreensão daqueles ao seu redor.
O filme carrega uma força que molda toda a sua forma fílmica. Os movimentos de câmera, a montagem rápida, os flashbacks e a trilha sonora envolvem o espectador, trazendo nuances de suspense que nos fazem temer pela vida de Grace e de quem está à sua volta, além de um humor sombrio gerado pela imprevisibilidade da protagonista. O toque fantástico e onírico também se faz presente e agrega outra camada à obra, conferindo um aspecto quase sobrenatural à condição daquela mulher, como se ela não pertencesse àquele lugar.
A narrativa discute a condição feminina, seja pela depressão pós-parto, pela crise no relacionamento ou pelas limitações que a sociedade impõe às mulheres que se tornam mães. Grace é uma mulher intensa: deseja viver e sentir tudo de forma absoluta. Ela não quer ser confinada ao papel de mãe e dona de casa, que a restringe enquanto mulher e enquanto sujeito livre. Contudo, para o patriarcado, mulheres livres e ferozes incomodam. Não é difícil imaginar que a personagem de Jennifer Lawrence tenha provocado incômodo em parte do público masculino e da crítica, justamente por sua postura disfuncional dentro dessa engrenagem que é a instituição familiar.

É possível lembrar de outros filmes que abordam a depressão pós-parto e a complexidade da maternidade, como O Estranho em Mim (2010), Tully (2018) e Canina (2024), todos centrados em protagonistas que vivenciam essa condição, mas que caminham em direção a algum tipo de reconexão consigo mesmas. Die My Love, porém, segue por outro caminho: carrega uma desesperança incrustada, que se torna ainda mais evidente em seu desfecho.
Apesar da temática, Ramsay parece mais interessada em explorar a condição da protagonista de forma visceral do que em explicar as motivações de suas atitudes. E tudo bem. O problema é que o filme se encerra de maneira abrupta, quase como se não soubesse como concluir o ciclo autodestrutivo e exaustivo de Grace, o que torna o longa difícil de acompanhar. Ao menos para mim, enquanto mulher, é doloroso assistir à destruição de uma mulher que sofre sem qualquer horizonte de compreensão de si mesma ou daqueles que a cercam.
O filme chama atenção pela performance de Jennifer Lawrence e pela sua estética, mas deixa a desejar no desenvolvimento narrativo, apostando excessivamente na desesperança. Ao final, Die My Love é um filme intenso — pela temática, pela postura de seus personagens e por sua forma fílmica. Ele impacta mais do que explica, sugere mais do que revela e explora seu tema de maneira visceral, valendo-se de toda a técnica e criatividade que o cinema pode oferecer.




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