SE EU TIVESSE PERNAS, EU TE CHUTARIA | A EXAUSTÃO SENSORIAL DA VIDA DE UMA MULHER
- raianecfferreira

- 23 de jan.
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Título original: If I Had Legs, I'd Kick You | Direção: Mary Bronstein | Ano: 2026 |
É interessante observar o enorme volume de filmes recentes em que as protagonistas femininas aparecem em sofrimento, sendo a maternidade uma das principais questões desencadeadoras desse processo. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, de Mary Bronstein, insere-se nesse contexto; contudo, aqui a maternidade é apresentada dentro da dinâmica complexa da vida adulta, na qual o tempo é constantemente dividido entre o trabalho, os cuidados com a casa, a família e os problemas repentinos que inevitavelmente surgem.
O filme acompanha de perto Linda (Rose Byrne), uma terapeuta exausta que, além de cuidar da filha doente, lidar com o marido ausente, e cumprir suas obrigações profissionais, precisa resolver o desabamento do teto da sua casa. Enquanto o teto está sendo restaurado, ela se muda temporariamente para um pequeno hotel com a filha e tenta sobreviver ao caos persistente de sua rotina. Este novo longa de Mary Bronstein se aproxima de um estudo de caso que, embora inspirado em experiências pessoais da própria diretora, não se limita a um relato literal, voltando-se, sobretudo, para a montanha-russa emocional vivenciada pela personagem.
Ao longo de poucos dias, vemos Linda enfrentar uma sucessão de desafios, registrados por uma câmera que se mantém constantemente próxima da protagonista. As microexpressões de seu rosto e o olhar cansado funcionam como um verdadeiro mapa sensorial da experiência fílmica. Essa escolha estética constitui o grande diferencial do filme: acompanhamos uma mulher esgotada, cansada e frustrada, não como meros espectadores voyeurísticos de seu sofrimento, mas a partir de uma proposta que busca transmitir suas sensações ao público. O espectador não apenas observa a transformação da postura de Linda ao longo da narrativa, mas sente sua angústia por meio da perspectiva próxima e claustrofóbica da câmera e da força sensorial que emana da concepção fílmica.

As expressões emocionais assumem papel central, pois, em diversos momentos, o que Linda verbaliza não corresponde à sua linguagem corporal. O sorriso forçado, as respostas clichês aos pacientes e a insistência em manter as atividades diárias, mesmo quando o corpo pede descanso, revelam tentativas de adequação a um padrão que, naquele momento, não faz mais sentido para ela. Linda carrega uma descrença e frustração em relação à própria profissão, além de sentimentos de tristeza e culpa associados ao seu papel como mãe e esposa. Esse peso reflete a exigência social imposta às mulheres de serem “perfeitas”, verdadeiras “Mulheres-Maravilha”, equilibrando carreira, família e vida pessoal — uma expectativa que frequentemente resulta em exaustão física e mental. O cuidado é constantemente demandado, mas o acolhimento de suas dores raramente se faz presente.
No livro “A Jornada da Heroína”, Maureen Murdock apresenta um percurso árduo pelo qual as mulheres precisam passar para reconhecer e integrar sua natureza feminina. A autora propõe um contraponto à tradicional jornada do herói que, embora complexa, não contempla plenamente as experiências e conflitos das personagens femininas. Segundo Murdock, muitas meninas desenvolvem desde cedo o desejo de reconhecimento masculino, especialmente por meio da busca pelo amor e aprovação do pai. Nesse processo, passam a se adequar aos valores e estruturas do mundo dos homens como forma de alcançar prestígio e validação, afastando-se da figura materna, frequentemente associada à fragilidade. Contudo, ao longo da jornada, a heroína é colocada à prova e se vê compelida a retornar ao “berço” materno. Esse retorno simbólico torna-se essencial para que ela reconheça e reconcilie em si mesma a essência feminina que havia negligenciado.
A protagonista de Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria parece habitar uma espécie de limbo, um estado de desgaste provocado pelas imposições do mundo patriarcal. A casa destruída pode ser compreendida como uma metáfora para uma vida em processo de desmoronamento, ou ainda como a materialização de um trauma relacionado à sua posição como mãe. Nesse sentido, o drama psicológico abre brechas para o realismo fantástico, que expõe camadas do inconsciente de Linda. O buraco no teto representa uma ausência, uma ferida aberta — um espaço simbólico que demanda preenchimento por afeto, escuta e compreensão.
A performance de Rose Byrne surpreende pela complexidade que a atriz imprime à personagem. Trata-se de uma protagonista feminina que se conduz — e nos conduz — à exaustão. Essa condição pouco se transforma ao longo da narrativa, uma vez que a diretora não oferece soluções fáceis ou respostas mágicas para essa realidade. Ainda assim, o amor surge como uma discreta faísca de esperança, conferindo ao filme um caráter envolvente e emocionalmente verdadeiro.




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